Orgulho e Preconceito - BBC (1995)

Colin Firth e Jennifer Ehle

Em 2005, muita gente teve a oportunidade de conhecer a ótima adaptação cinematográfica daquela que talvez seja a obra mais popular de Jane Austen: "Orgulho e Preconceito". Dirigido por Joe Wright, e com Keira Knightley no papel de Elizabeth Bennet, o filme recebeu boas (e merecidas) críticas, e conseguiu um bom desempenho nos cinemas.

Bem menos conhecida por aqui é a minissérie baseada na mesma obra, produzida pela BBC em 1995, e MUITO superior ao já excelente filme de Wright. Essa fantástica produção, infelizmente, nunca deu as caras em nosso país, seja na tv a cabo, seja no mercado de DVDs. Como sempre, ficamos a ver navios. Algo que não me surpreende, dada a preferência do nosso público pelos "Gossip Girls" e "Smallvilles" da vida. É realmente uma pena, pois dessa forma poucos puderam conferir uma das melhores e mais talentosas produções já feitas para a TV.

"Pemberley" (Renishaw Hall)

Sob qualquer ângulo que se avalie, a minissérie é irretocável: os figurinos, trilha sonora e caracterização de época são de altíssima qualidade, as locações são belíssimas, o elenco é afinado, e a direção, segura e competente. O ritmo alterna com maestria momentos dramáticos com passagens absolutamente hilárias, prendendo o interesse do espectador do primeiro ao último dos seis episódios.

Aliás, a maior duração evita uma série de problemas que o filme de Joe Wright teve de enfrentar - foi inevitável, na produção cinematográfica, que certos acontecimentos e mudanças ocorressem de uma forma um tanto abrupta e artificial, já que várias passagens tiveram que ser abreviadas ou mesmo eliminadas por completo. Já a minissérie, contando com aproximadamente cinco horas e meia de duração, logra manter uma fidelidade muito maior em relação à obra original, dessa forma propiciando uma evolução bem mais natural dos personagens e das situações - especialmente no que diz respeito aos sentimentos e posturas conflitantes do par central (e que inspiram o nome do livro).

As irmãs Bennet

Com relação aos atores, é até difícil apontar qual é o melhor. Jennifer Ehle transmite com absoluta segurança a forte personalidade e inteligência de Elizabeth Bennet (o papel que, no cinema, foi de Keira Knightley), sem perder o encanto e a beleza que caracteriza a personagem. Por seu desempenho, levou o Bafta de melhor atriz . Colin Firth, por sua vez, não fica atrás, interpretando de modo marcante o soturno e orgulhoso Mr. Darcy - com destaque para a cena do "pedido frustrado de casamento". Alison Steadman, como a irritante Mrs. Bennet, e David Bamber (que interpretou Cícero, na minissérie "Roma" da HBO), como Mr. Collins, estão simplesmente impagáveis em seus respectivos papéis. São deles alguns dos momentos mais engraçados dessa produção - e não são poucos. Por fim, Benjamin Whitrow está perfeito no papel de Mr. Bennet, e são absolutamente geniais as cenas em que ele interage com a família, especialmente com a difícil esposa. No Bafta, tanto ele como Colin Firth foram indicados ao prêmio de melhor ator por seus desempenhos nessa minissérie.

David Bamber, como Mr.Collins

A história trata da irmãs Bennet, especialmente da segunda mais velha, Elizabeth (Lizzie). A situação delas não é nada boa. Como seu pai não teve a sorte de ter um filho, e como a lei inglesa da época determinava que a herança do pai ia obrigatoriamente para o parente masculino mais próximo, a sorte recai sobre o primo, o almofadinha e aprendiz de puxa-saco Mr.Collins. A única esperança das filhas é arrumar um bom casamento com algum partido rico, algo que sua frívola e inconveniente mãe se desdobrará em patrocinar - para desespero de algumas. Nesse contexto, Lizzie vem a conhecer, em um baile da cidade, o anti-social, mal-humorado e quaquilionário Mr.Darcy. Só que Mr.Darcy não está nem um pouco com vontade de se misturar com aquela gentalha provinciana e abaixo do seu olimpo social (lembremos o rígido sistema de classes vitoriano), e trata de deixar isso bem claro, de uma maneira, digamos, nem um pouco discreta. Para piorar, o estraga-prazeres ainda vai tentar melar o incipiente romance entre Jane, a filha mais velha dos Bennet, e o seu melhor amigo, Mr.Bingley. Desnecessário dizer que Darcy e Elizabeth entrarão em franca rota de colisão, e terão que lidar com seu orgulho e preconceito (arrá!) para descobrirem que as coisas não são tão simples assim.

"Orgulho e Preconceito" fez grande sucesso de público entre os telespectadores ingleses. O último episódio chegou a alcançar cerca de 40% da audiência, algo incrível para uma produção do gênero. Recebeu também excelentes críticas da imprensa. Pessoalmente, considero essa minissérie perfeita sob todos os aspectos, e não hesito em indicá-la para todos. Exceto, claro, para os que não apreciam o gênero em hipótese alguma. Aos demais, tenho certeza de que vão terminar de assistir essa obra-prima da BBC com um grande sorriso no rosto, e uma enorme vontade de repetir a dose. É uma experiência memorável.

Alison Steadman e Benjamin Whitrow como Mr. e Mrs. Bennet

Há muito mais que se pode dizer sobre essa magnífica produção, mas recomendo que vocês a conheçam por conta própria. Infelizmente, não há jeito de adquiri-la por aqui, a não ser por importação ou download via torrent/emule (legendas no legendas.tv). Lá fora existem ótimas edições especiais em DVD, e para quem tem dificuldade com o inglês, vale a pena tentar importar a versão de Portugal, que possui legendas em português.

13 comentários:

Anônimo disse...

Ótima minissérie.
Ótimo filme.
Melhor ainda o livro...

Anônimo disse...

Talvez esteja comentando este tópico com bastante atraso. A série de 1995 da BBC realmente é excelente e írretocável. Não entendo, entretanto, o porque de tantos elogios dirigidos ao filme de 2005. Simplesmente achei detestável a adaptação cinematográfica. A escolha da atriz canastrona Keira Knightley como Lizzie Bennet foi desastrosa: ela, além de péssima atriz, simplesmente não consegue captar a personalidade da heroína, irônica e espirituosa, e pensa que interpretar a alegria da personagem é rir como uma tonta em alto e bom tom, o que me fez lembrar por demais o comportamento histriônico de Mrs. Bennet. Na cena em que ela recusa Mr. Darcy, a atriz o faz com tanta agressividade, que quase morde o pretendente. O verdadeiro Mr. Darcy jamais olharia para uma Elizabeth tão vulgar. O figurino de Elizabeth beira a miséria. Parece que a atriz está vestida com um vestido de estopa preto o filme todo, e com os cabelos desgranhados. A sua residência não fica atrás: porcos e galinhas correndo no meio da lama e panos espalhados pela casa para sinalizar que a família é de uma classe inferior? Quanta sutileza!!! E apesar de gostar de Matthew Macfadyen, esse não foi um desempenho feliz. Seu Mr. Darcy parece estar o tempo todo com dor de barriga e infeliz,e o ator nunca consegue passar o orgulho e uma certa arrogância do personagem. Por fim, o espaço é pequeno para que eu possa expressar a minha irritação com a versão cinematográfica. Só posso finalizar dizendo que embora dirigido por um inglês, a versão foi feita para americano ver: nenhuma sutileza e todas as obviedades possíveis.

Cristiane Conde

José Guilherme Wasner Machado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José Guilherme Wasner Machado disse...

Na verdade, não vejo "tantos elogios", já que os únicos elogios feito ao filme foram as frases "recebeu boas (e merecidas) críticas, e conseguiu um bom desempenho nos cinemas" e "ao já excelente filme de Wright". Muito pouco, não? De resto, o post é sobre a minissérie e não sobre o filme, que foi utilizado aqui apenas como uma introdução.

Entendo suas críticas ao filme de Wright, e não posso deixar de concordar que na maioria delas você tem ótimos argumentos. Suponho que você seja fã da obra original de Austen, e quem conhece uma obra primordialmente pelo livro quase sempre tem reações extremas com frequentes falhas das adaptações cinematográficas. Não estou criticando em absoluto - eu próprio sou assim. Mas não tendo uma relação tão próxima com a obra original quanto você, tenho um referencial diferente e, provavelmente, mais condescendente. Assim sendo, não considero o filme ruim como você o percebe, tampouco compartilho da sua desaprovação à Keira Knightley. Mas a minissérie está num patamar muito, mas MUITO superior, em qualquer aspecto. Sobre isso não há dúvidas.

Anônimo disse...

De fato, sou bastante dura com o filme, principalmente porque gosto demais da autora e sou exigente quanto às adaptações. Entretanto, quando falei que não compreendo tantos elogios, na verdade não me referia em especial ao seu comentário, mas aos elogios que eu escuto de muitas pessoas que assistiram ao filme. Me desculpe se minha ênfase pareceu ser dirigida ao seu post. O problema é que muitas pessoas, devido ao novo modismo "Jane Austen", falam com entusiasmo da escritora como se a conhecessem a partir da versão cinematográfica. Muitas vezes nem me manifesto, porque acho que não serei compreendida ou parecerei esnobe. Mas não retiro nenhuma palavra do que escrevi: aqui me senti à vontade para expressar meu desapontamento com o filme e com a maneira como o cinema, por vezes, elimina com obviedades a capacidade dos seres humanos de captar sutilezas. Quanto à Keira, simplesmente, não consigo perceber talento nela desde que a vi no papel de Lara na versão de Doutor Jivago de 2002. Ela não consegue me convencer como atriz, mas respeito a sua opinião.
Cristiane

José Guilherme Wasner Machado disse...

Por favor, fique sempre à vontade para ser absolutamente sincera por aqui, Cristiane. Mesmo quando discordar 100% do que escrevi. É um prazer ver uma pessoa inteligente e articulada expondo uma opinião com bons argumentos. Acredite, isso é cada vez mais raro na internet. São com opiniões assim que aprendemos. Em tempo, estou lendo "Emma", e por esse livro posso ter uma noção de como você deve se sentir em relação a essas adaptações.

Abração!

Anônimo disse...

Ciastiane. Acho que voce não entendeu o romantismo do filme na epoca em que se passou.Achei uma obra de arte, como a maioria dos filmes ingleses.

Josh & Cris Wall disse...

Oi, eu moro nos EUA e se alguem tiver interessado em comprar dvd's das mini-series da Jane Austen e outros escritores ingleses, mandem email para cristiannewall@hotmail.com.

José Guilherme Wasner Machado disse...

Josh/Cris,

Os DVDs já vem sendo vendidos no Brasil há algum tempo.

Cleiton Vieira disse...

O melhor romance que já existiu. Não é meleso, nem canastrão, também não é obvio e fútil como os de hoje. Cheio de ironia, humor inteligente. Orgulho e Preconceito é uma obra prima da humanidade. Perfeito.

Anônimo disse...

Nunca fiquei tão entusiasmada com adaptações de livros para as telinhas ou telonas, mas essas produções realmente merecem os parabéns. Discordando um pouco da maioria do pessoal (não sou crítica de cinema nem nada, só me guio pelo que sinto) achei o Mr. Darcy do filme melhor que o da série. Outra coisa que achei melhor no filme foi a trilha sonora. Praticamente ouço todo dia. Mas em termos gerais, a série ganha de lavada.
Sempre leio os romances de Austen, que são absolutamente perfeitos em suas críticas à sociedade da época. Uma das minhas escritoras preferidas!
Apesar da discrepância de qualidade entre o filme e a série, eu acredito que a história em si é tão envolvente que o restante pode ser superado.
E para quem quer ter acesso a outras adaptações de autora tem esse blog aqui:
http://cinemadeclasse.blogspot.com/search/label/*Especial%20Jane%20Austen
Lá você pode encontrar a maioria das adaptações.

OBS: a série é tão boa que assiti todos os capítulos em um dia!

Daniela

Meire disse...

Acho que a série é obrigatória para quem curte literatura inglesa. Um dos maiores sucessos da BBC.
Amei a série e basicamente concordo com tudo o que você escreveu, acho apenas que o Colin Firth em alguns momentos exagerou um pouco e sua atuação passou um Mr. Darcy intolerável! Tudo bem, ele é orgulhoso e o orgulho é algo terrível, mas sua governanta o descreve como alguém tímido, característica que ele mesmo confessa ter, e em ouro momento a tia da Elizabeth diz que Mr. Darcy é alguém muito educado e tinha algo de doce e agradável ao falar.
A própria Elizabeth, no momento em que eles finalmente dançam, confessa que acha ele uma incógnita, mas o único momento em que o Mr. Darcy do Colin Firth demostra alguma simpatia é no momento que soube da fuga da irmãzinha maluca da sua amada.
MAS ISSO É UM DETALHE PEQUENO DEMAIS PRA SER LEVADO EM CONTA! COLIN FIRTH É UM BAITA ATOR E ATÉ HOJE É RECONHECIDO PELOS BRITÂNICOS COMO O MELHOR MR. DARCY.
E devo confessar que nunca conheci ninguém que colocasse defeito no Mr. Darcy do Colin Firth.
Achei a série maravilhosa e a melhor produção que eu vi da BBC.


Quanto ao filme de Joe Wright, minhas ressalvas são: a casa dos Bennets, e o figurino usado pela Keira.
ADOREI O FILME!
O semblante do Matthew MacFadyen ao entrar no salão de baile é muito bom, quase desisti do filme naquela cena, tamanha era a minha aversão ao Mr. Darcy.
É claro que o filme tem a desvantagem do tempo de duração, mas na minha opinião o Joe Wright usou a luz magistralmente. Algumas cenas em que a mão do Matthew MacFadyen ficam em closet como simbologia do objeto de desejo de toda moço solteira - uma alusão a 1ª frase do livro.
Na minha opinião o Joe Wright deveria ter feito a versão dele como série e não filme, aí seria perfeito.
A FOTOGRAFIA E TRILHA SONORA SÃO MARAVILHOSAS! Minha opinião.

José Guilherme Wasner Machado disse...

Concordo que talvez Colin Firth tenha pesado a mão em alguns momentos... por outro lado, é fascinante ver como os sentimentos dele vão mudando irrevogavelmente em relação a Lizze. Vale lembrar que o próprio personagem explica que ele não é nada sociável com estranhos, e que o comportamento dos Bennets nas ocasiões públicas em que eles se encontraram foi realmente deplorável... ;)

Abração!

Postar um comentário

Por favor, fique à vontade para comentar, é um prazer saber sua opinião. Seja ela contra, a favor, ou muito antes pelo contrário. Não será permitido trolling, bullying, spam, preconceito e ataques meramente pessoais ou destrutivos.

BlogBlogs.Com.Br