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Um giro pelos programas de culinária (parte 2) - "Sem Reservas", de Anthony Bourdain

14:54 José Guilherme Wasner Machado 2 Comentários Categoria: , , ,

Pense num cara chato. Sabe, mala sem alça? Não, esqueça o Galvão Bueno por enquanto (até porque esse é hour concours). Agora pegue toda essa chatura, multiplique por mil, e some muita antipatia, enjoamento, pretensão e arrogância. Se você fez tudo direitinho, terá obtido Anthony Bourdain. Ele é um famoso chef americano, apresentador de televisão, escritor de livros de culinária e chato de galochas profissional. Seu programa, intitulado "Sem Reservas" (exibido na Discovery Travel & Living), é um painel sobre os países visitados, trazendo ao espectador uma visão da sua culinária e um pouco da sua história e de seus costumes. Ou pelo menos é o que deveria ser. Na realidade, o programa é sobre algo muito mais importante e relevante do que tudo isso: o próprio Bourdain. Tudo mais é insignificante. Em vez de obtermos informações interessantes sobre o país abordado, ou sobre os pratos que passam (velozmente) pela tela, temos que aguentar os intermináveis, pretensiosos e "poéticos" discursos auto-indulgentes do sujeito. E ele não deixa muita dúvida de que considera seus monólogos - além da sua própria pessoa, claro -um presente de Deus para o mundo. Mais lamentável do que isso é o descaso, o sarcasmo e a mordacidade (para não dizer desprezo) com que ele trata seus anfitriões e a sua cultura. Às vezes eu tenho a impressão de que, para ele, fazer esse programa é um sacrifício. Um mal necessário para escrever o próximo livro.

Um episódio típico: em visita à Índia, arregimentou uma família para fazer vários pratos típicos para ele. Os pobres (nesse caso, literalmente) coitados perderam um tempão fazendo compras e esfalfando-se na cozinha. Mas os telespectadores pouco se beneficiaram culturalmente dessa oportunidade, pois o programa deu ampla preferência para as lamúrias de Bourdain. No caso, destilando mau-humor contra o travesso menino do casal. Afinal, o moleque cometeu o grave erro de importunar o convidado na sala de estar. Sim, é isso mesmo: Bourdain nem se deu ao trabalho de levantar o traseiro ossudo do sofá e ir na cozinha verificar o que estava acontecendo. Sabe como é, informar-se sobre o modo de preparo daquela refeição tão singular? Aquela que estava sendo feita especialmente em sua homenagem? Quiçá dar um apoio para os anfitriões? Mostrar solidariedade? Gratidão? Oh, não, ele não. E se alguém esperava que a coisa iria melhorar após ele se sentar à mesa, danou-se. Depois de tanto esforço do casal indiano, somos brindados com
apenas algumas frases de efeito, pontuadas com o característico tom monocórdico tedioso do apresentador. Bem, menos mal, acredite. Em um programa sobre a Grécia, ele desandou a fazer comentários jocosos sobre as danças locais e a forma física "desfavorável" de alguns dos participantes de um piquenique, para o qual ele havia sido gentilmente convidado.

Essa é tônica do programa de Bourdain: a sua acidez, arrogância e desdém pelas singularidades da cultura e da culinária local. Entusiasmo mesmo, só na hora de iniciar seu blábláblá depreciativo, entremeado de chavões e um ou outro - vá lá - elogio condescendente. Afinal, não é como se ele não soubesse fazer uma ou outra concessão generosa. Mas não a ponto de deixar margem para confusões: ele é a estrela do show, que o público jamais se esqueça disso. Quem estiver interessado em alguma outra coisa, vai se dar mal.

O programa sobre a Rússia é exemplar: assistindo o Bourdain, a impressão que tive é que o país deveria ter uma culinária limitadíssima e sem imaginação. Reflexo, pensei, dos longos anos de totalitarismo comunista. Sabe como é, culinária é algo bem característico da decadência burguesa. Difícil concluir alguma outra coisa, já que o programa, como de costume, estava mais preocupado em mostrar as macaquices auto-congratulatórias da diva principal (no caso, rolar seminu com o amigo dele. Não me pergunte). Só fui perceber o quanto eu estava enganado, e quão rica e interessante é a culinária local, quando fui assistir à edição russa do "Comidas Exóticas", de Andrew Zimmern. Dá raiva, não? Mas como toda regra, há algumas exceções, não sejamos injustos com o cara. Em sua visita ao Brasil, Bourdain foi surpreendentemente mais simpático do que sua média habitual - claro, não a ponto de abrir mão da tradicional acidez. Aventurou-se em um típico barzinho de rua, experimentou um sanduíche de mortadela (e aprovou) e deu chance à nossa tradicional feijoada. Foi mais amável e receptivo às diferenças do que de costume. Pena que a sua rotina esteja longe disso.

Recomendável apenas para os fãs desse sujeito (afinal, existe gosto para tudo). Da minha parte, prefiro fazer coisas mais agradáveis, como enfiar pregos enferrujados debaixo das unhas.

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2 comentários

  1. Cara, não acho o Bourdain tão chato assim. Na verdade, eu gosto do programa. Td bem, pod ser q tem gosto para td mesmo. Opa.. serà que eu sou parecido com ele? OMG!!!!!

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  2. Clayton, eu tenho dado uma espiada na última temporada do "Sem Reservas", e até que o Bourdain deu uma melhorada mesmo. Ele está bem mais simpático. Vai entender... :)

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