Como se sabe, Belo Horizonte é a capital brasileira dos botecos. Nenhuma outra cidade tem tantos bares por habitante. O boteco está para o belorizontino assim como a praia está para o carioca. Assim, nada mais
inevitável que o surgimento de eventos que procuram explorar este lado tão característico da capital mineira. O "Comida di Buteco" é o evento mais famoso desse tipo, e é um grande sucesso, inclusive tendo sido exportado para outras capitais. A idéia é a seguinte: promover um concurso onde os botecos participantes concorrem pela comida mais deliciosa. Os clientes frequentam os bares participantes, experimentam o prato que está concorrendo, e votam. No final, o mais votado ganha. Com isso, teoricamente, festejar-se-ia a cultura do boteco, suas tradições e sua culinária típica. Tudo muito lindo e maravilhoso. Pena que os próprios botequeiros - digo, os clientes genuínos desse tipo de estabelecimento - sejam excluídos da equação. Barrados na porta. E sem direito a um torresminho.
Pois é, esse é o lado negro, sujo e podre do "Comida di Buteco", que a imprensa ufanista e congratulatória esquece de mencionar. Pela duração do evento, quem menos frequenta os botecos são os próprios botequeiros. São desalojados de suas cadeiras de plástico prensado e metal enferrujado pelas "galeras" (sacou o "galera"? Hein?) de patricinhas, mauricinhos, madames e playboys, todos oriundos da zona sul e de outros bairros nobres. São as Invasões Bárbaras.
É fácil reconhecer os tipos. Vestidos no último grito da moda, chegam em carros top e se cumprimentam com aqueles apertos de mão contorcionistas que mais parecem ter saído de uma convenção dos escoteiros-mirins. Bonezinhos de grife virados para trás, saudam os outros "bródas" da sua tchurma com o tradicional grito-de-guerra-big-brother-brasil: Urrrruuuuu! URRRRRRUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!!
Mais acostumados a bares da moda da zona sul, com suas longuinéquis, porções ínfimas e decoração Casa Cláudia, nossos aventureiros logo torcem o nariz para as acomodações simples de um típico boteco de esquina. Logo começam as reclamações contra as instalações sanitárias, as paredes desbotadas, as cadeiras desconfortáveis, a decoração brega e a falta de espaço. Mas tudo bem, há que se fazer sacrifícios. Não são eles uma espécie de Indiana Jones, desbravando as singularidades de uma civilização desconhecida? Há que se ter coragem. Mas o evento acaba por passar, e com ele passa também o modismo... boteco deixa de ser "cool", e todos desaparecem. Só então os botequeiros tradicionais, aqueles que conhecem o dono do bar e que são reconhecidos por todos os garçons, podem voltar a curtir o lugar.
E os pratos então? Aí a coisa beira o ridículo, o patético, o cômico. Para promover a "criatividade", as regras do evento são feitas de tal maneira que tem que haver novidade todo ano. Ou seja, todo ano o boteco tem que
tratar de inventar um prato novo para poder participar. Ou seja, nada do que é realmente "botequeiro".
Comida de boteco é típica, tradicional e simples. Não tem invencionice. Não tem montinhos, firulas e apresentações complicadas. Não tem molhinhos de fruta. Não tem misturas finas. Não tem ingredientes sofisticados. Comida de boteco é a rabada com agrião que só a Dona Maria sabe fazer naquele fogão enferrujado. Há trinta anos. Comida de Boteco é língua, moela, torresmo, músculo. É simples, direta, básica. Não tem nada de armado, não tem nada de inventado.
Ah, estou exagerando? Estou, é? Então vamos a alguns exemplos desse ano:
- "carne serenada com maxixe, tirinhas de pimentão amarelo, vermelho e verde, cebola roxa, acompanha farinha de cigano e couve"
- "creme de pé de porco, com confit de pato e um toque de mostarda tipo Dijon servido com folha de mostarda crocante"
- "costelinha desossada e marinada em molho shoyo e limão no espetinho e frita. Servido com molho de mexerica e farofa de carne desfiada de pescoço de peru, taioba e farinha de milho"
- "batata ao coice com molho quatro queijos, acompanhado de medalhões de avestruz, creme de taioba e espinafre picante"
- "tradicional p
ernil do Palhares servido em forma de caracol, regado com molho picante de abacaxi, acompanhado de hortaliças, fios de couve e pão árabe" - "cubos de carne marinados, berinjela crocante e bolinhas de angu com taioba, ao molho Vadinho".
- "bolinhos de bacalhau ao molho acompanhado de creme de abóbora"
- "linguiça artesanal de porco acompanhada de bolinhos de angu com queijo, couve e alho caramelizado"
- "coxinha da asa frita com molho picante, acompanha espetinho de couve recheado com bacon"
Alguém pode me dizer, pelos céus das Gerais, o que beringela crocante, tirinhas de pimentão e confit de pato tem a ver com comida de boteco?Alguém pode me dizer, em nome de São Asimov, o que hortaliça, espetinho de couve e alho caramelizado têm a ver com comida de boteco?
A resposta é óbvia. Isso não tem, nem nunca teve NADA a ver com comida genuína de boteco. Talvez na visão das patricinhas e mauricinhos da zona sul, de onde provavelmente saíram os organizadores dessa aberração.
E a tal "Arte no Banheiro"? Ridículo! Arte em banheiro de boteco é a pintura descascando! Ou os padrões de mofo na parede! Ou a aleatoriedade do reboco soltando! Arte no banheiro... me poupem!

Então esse é o grande feito do "Comida di Buteco". Destruir o que ele afirma promover. Desalojar os verdadeiros clientes e descaracterizar a verdadeira comida e o verdadeiro boteco. Esse é o seu precioso legado.
Todo boteco que participa do "Comida di Buteco" deveria perder o título. Deveria perder seus clientes. Deveria ser exilado da Botecosfera. Deveria apenas receber o desprezo de todos os verdadeiros botequeiros. Seu amigo elogia o "Comida di Buteco"? Desconfie. Botequeiro
de verdade ele não é, nem nunca foi. Você precisa de novos amigos! De preferência, alguém que respeite e venere a verdadeira comida de boteco.Para finalizar, palmas para o "Quintal do Prado", o melhor boteco de BH e, como tal, nunca participou dessa porcaria. Por quê? Palavras do dono: "não vou desalojar meus clientes tradicionais para um monte de gente que não tem nada a ver, e que quando o evento terminar, nunca mais voltarão". Clap, clap, clap.
Quintal do Prado: Nota DEZ. Comida di Buteco: Nota ZERO.
8 comentários:
Olá! Gostei muito do seu texto. Nunca tinha pensado nisso e é a maior verdade! Sempre adorei o "Comida de Boteco" e lamentava por não estar morando em BH... Sabe, fico com o torresmo, a Língua e a cerveja gelada!
Saudações blogueiras e botequeiras!
Cynara Bastos
cynarabastos.web-day.net
Uma coisa é fato, Cynara... boteco igual em BH, não tem em nenhum lugar!
Abração!
Sou frequentador de botecos de BH, e concordo totalmente. Na época do concurso, deixo de ir nos bares participantes nos quais sou habituè. É impraticável.E no outro ponto, tb está apoiado. Na próxima edição teremos termos como "acamado" e "redução", típicos de restaurantes finos(que não frequento, diga-se de passagem)...Aqle amplexo!!!!! Clayton Bonfim, BH
Parabéns!
Seu texto beira a genialidade!
Vai escrever bem assim lá na... cozinha do buteco que eu frequento!
hahaha
Muito bom. Captou a raíz do problema!
feição nova para um problema antigo. Como dizia Milton Santos, geógrafo apesar de não ser butequeiro, "... onde o capital (K) chega, ele transforma; ou melhor, ele deforma..."!
Fetiche da mercadoria, Reificação e dominação cultural!
Palmas para o buteco do Prado.
Everton Luís - BH
Obrigado pela gentileza, Everton e Clayton!
E boas aventuras na botecosfera! Vamos beber todas! :)
olá...
eis que descubro que mais pessoas nessa cidade concordam que o tal Comida de qualquer coisa, nunca será verdadeiramente uma comida de boteco...
Parabéns pelo texto e pelas idéias...
Deixo aqui o link que gostar:
http://butecodoedu.blogspot.com/2011/02/comida-di-buteco-2011-vem-ai.html
Olá, Patrícia! Obrigado! Gostei muito de descobrir que não estou sozinho no meu repúdio a esse execrável Comida di Buteco.
Botequeiros de verdade, uni-vos contra esse droga!
Abração!
Esse texto é definitivo.
Parabéns.
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