Treze Blu-rays para 2011


O formato blu-ray trouxe consigo grandes esperanças para os cinéfilos. Pela primeira vez, era possível ter, no conforto de casa, uma experiência próxima à de assistir a um filme no cinema - seja em termos de imagem ou de som. Considerando, claro, TVs acima de 50 polegadas. Não há dúvidas: quando a produção de um blu-ray é bem conduzida, a experiência é de cair o queixo. O problema é que isso não é uma regra geral. Frequentemente são lançadas edições de baixa qualidade, que pouco justificam o alto preço cobrado. Esse descaso com o consumidor é um tiro no pé, principalmente numa época em que a pirataria está rolando solta. Apesar desses problemas, a tecnologia blu-ray, quando bem empregada, é o que atualmente há de melhor para os cinéfilos. Ter a oportunidade de assistir, em uma tela de bom tamanho e com uma qualidade de imagem quase fotográfica, a um grande clássico do passado - muitas vezes, de uma época em que nem éramos nascidos! - é uma experiência quase religiosa. Sendo assim, é natural que esperemos com ansiedade novos (e bons!) lançamentos. Existe ainda um grande hiato a ser coberto, já que são inúmeras as obras-primas ausentes no catálogo atual.

Faço a seguir uma lista com alguns dos filmes que eu particularmente gostaria de ver em blu-ray. Em edições caprichadas, é claro. São doze grandes filmes - um para cada mês. E um extra, para o décimo-terceiro salário.


Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944)


Vendedor de seguros se envolve com uma enigmática mulher casada. Juntos, planejam um golpe para embolsar o seguro de vida do maridão. Só que as coisas começam a dar errado. Obra do genial diretor Billy Wilder, esse policial é considerado o mais perfeito exemplar do cinema noir, e serviu de inspiração para muitos outros filmes do gênero. Entre eles, o subestimado Corpos Ardentes, que abordei aqui no blog, em Filmes que o Tempo Esqueceu. Pacto de Sangue possui uma bela fotografia, desempenho memorável do par central (interpretado por Barbara Stanwick e Fred MacMurray), direção impecável e um roteiro assinado por Raymond Chandler, o famoso escritor de novelas policiais. Enfim, um filme essencial.

12 Homens e uma Sentença (12 Angry Men, 1957)


Doze jurados precisam decidir se um réu é culpado ou inocente. A decisão é óbvia, cristalina. Nisso todos concordam. Ou não? Sensacional e pouco convencional drama de tribunal. Detalhe: sem tribunal! Grande estudo da natureza humana, com seus preconceitos arraigados, e suas diferenças de valores e de percepções. Magnífico filme do grande diretor Sidney Lumet que, infelizmente, perdeu o Oscar para A Ponte do Rio Kwai. Briga de gigantes. Nesse caso, eu tenho lá minhas dúvidas de que a justiça foi feita. Obrigatório para qualquer um que se diga fã da sétima arte.

A Época da Inocência (The Age of Innocence, 1993)


Newland Archer (Daniel Day-Lewis) é um jovem membro da alta sociedade nova-iorquina, no final do século 19. De natureza conservadora e avesso a novidades, ele está de casamento marcado com May Welland, para aprovação geral de seus pares. May é graciosa, de boa família e virtuosa - enfim, tudo o que um noivo poderia desejar. Mas o mundo certinho e previsível de Archer entra em parafuso, quando este conhece a nada convencional Condessa Olenska (Michelle Pfeiffer), uma mulher belíssima e disposta a enfrentar um escandaloso divórcio. Seu desejo de liberdade a condenará ao limbo social. Irá Archer junto com ela? Marcado pela sutileza e pela contenção, A Época da Inocência é um filme injustamente subestimado do diretor Martin Scorsese. Soberbamente dirigido, com grandes desempenhos do par central, bela trilha sonora de Elmer Bernstein e primorosa reconstituição de época, merecia ter tido melhor carreira. Mas na minha blurayteca, ele sempre terá um lugar de destaque.

Chinatown (Chinatown, 1974)


Detetive pé-de-chinelo é contratado para investigar um suposto caso de adultério. A coisa se complica - e muito - quando o seu alvo é assassinado. Pressentindo sujeira das grossas, ele resolve prosseguir na investigação. Uma decisão temerária, cuja sabedoria ele logo começará a questionar. Essa obra-prima do diretor Roman Polanski está sempre presente na relação de melhores filmes de todos os tempos. Com absoluta justiça, eu asseguro. Vale citar os desempenhos memoráveis de Jack Nicholson e Faye Dunaway que, inclusive, foram indicados para o Oscar daquele ano. Chinatown também concorreu ao Oscar de melhor filme, mas foi preterido em função de O Poderoso Chefão II. Outra briga de gigantes, em que perder não é absolutamente nenhum demérito.

Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa, 2000)


Em 1962, vivendo num pardieiro em Hong Kong, um homem e uma mulher se aproximam, quando desconfiam de que seus cônjuges estão tendo um caso. Belíssimo e pouco usual filme do diretor Wong Kar-Wai, com um visual marcante e uma trilha sonora matadora. Preste atenção nos vestidos envergados pela personagem principal. Além de muito sensuais, eles indicam, de forma sutil, a passagem do tempo - algo fundamental para entender o andamento da história.

Cidade dos Sonhos (Mulholland Dr., 2001)


Mulher é ameaçada de morte, mas é salva por um fortuito acidente de automóvel. Todavia, sofre ferimentos que a deixam sem memória. Vagando pelas ruas de Los Angeles, encontra uma jovem aspirante a atriz. A moça irá ajudá-la a redescobrir sua identidade, e por que motivo estão tentando assassiná-la. O problema é que nada - nada mesmo - é o que aparenta ser. Há quem ame e há quem odeie Mulholland Dr. (cadeia para quem bolou o imbecil título nacional). Para mim, é a obra-prima definitiva do diretor David Lynch. Um dos mergulhos mais perturbadores já feitos na psiquê humana, explorando com maestria mecanismos pouco compreendidos da nossa mente. Lynch escancara, não sem um toque de piedade, o remorso e a culpa que corroem a personagem principal. É impossível não nos identificarmos com o sentimento da protagonista, ainda que nem sempre entendamos completamente o que se passa na tela. Quantas vezes não quisemos voltar o relógio do tempo, reescrever a história e, na impossibilidade disso, simplesmente escapar de uma realidade insuportável? Mulholland Dr. é muito mais que uma narrativa - é uma experiência compartilhada. E nada agradável. Para tornar tudo mais desafiador, Lynch não fornece respostas fáceis, exigindo a cumplicidade e o engajamento do espectador, desafiando sua inteligência e percepção. Até mesmo fornecendo brechas para uma interpretação pessoal. Não é um filme fácil, e definitivamente não é para qualquer gosto. Mas quem embarcar nessa jornada não conseguirá ficar indiferente. Mesmo que não consiga saber exatamente o porquê.

Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981)


Os Caçadores da Arca Perdida dispensa apresentações. Humor, ação, romance, mistério, horror - tudo na medida certa. Ótima trilha sonora de John Williams, excelente fotografia, roteiro assinado por um Lawrence Kasdan em sua melhor fase, direção impecável de Spielberg, ritmo perfeito, elenco escolhido a dedo e um Harrison Ford no auge de seu carisma. Dá para querer mais? É simplesmente o melhor filme de aventura já feito em todos os tempos, e muito superior às suas duas continuações (o quarto filme? Para mim, não existe). Não me entendam mal; também as tenho em alta estima, porém longe da genialidade da primeira aventura do Dr. Jones. Os Caçadores da Arca Perdida é um dos filmes do meu "Top Ten" e uma das experiências mais memóraveis que já tive em um cinema. Quero reviver essa sensação de deslumbramento com uma tela grande e a qualidade que só o blu-ray consegue entregar. Em especial, desejo rever, em todo o explendor do Full HD, a empolgante sequência da "Sala do Mapa". Um momento-chave, brilhantemente executado por Spielberg e sua equipe, com que nenhum efeito digital de última geração é capaz de rivalizar, em termos de emoção.

O Império Contra-Ataca (The Empire Strikes Back, 1980)


A escória rebelde se deu bem no capítulo anterior. Mas Darth Vader não chegou a Mestre do Mal fazendo ENEM. O Império Contra-Ataca é outro filme que dispensa apresentações: um dos mais perfeitos exemplares do cinema de ação. Ponto. Mérito, sobretudo, do roteiro brilhante de Lawrence Kasdan, em grande fase, e da direção cheia de energia de Irvin Kershner. O que eu lamento é que, provavelmente, a versão blu-ray virá em box fechado, em venda casada com a nefanda "Nova Trilogia". Algo que me fará desistir completamente da compra, isso é certo. Simplesmente me recuso a gastar o meu dinheiro premiando aquele lixo radioativo. Somando injúria ao insulto, a trilogia clássica foi destruída retroativamente - e isso não é força de expressão. Os filmes originais foram modificados para se compatibilizarem com a nova trilogia (inclusive substituindo digitalmente atores e vozes), como se esta fosse mais relevante que a primeira. A História irá colocar cada uma em seu devido lugar. Não que esses detalhes importem para o ego descomunal do truculento e arrogante George Lucas. Que provavelmente repetirá, em blu-ray, a tática mesquinha e revanchista empregada nas edições de DVD. Ou seja: os filmes originais, sem modificações, só sairão - se saírem! - muito tempo depois das versões "atualizadas". E não deverão contar com os benefícios do trabalho de remasterização. Interprete essa atitude comercialmente insana pelo que de fato ela é: um grande dedo médio levantado na cara de todos os fãs que não concordaram com as decisões do "Sr.Visionário", e para quem é cada vez mais evidente os limites estreitos do seu talento.

A Malvada (All About Eve, 1950)


Quem me apresentou esse filme foi minha esposa, e sou muito agradecido a ela por isso. Filmaço! Escrito e dirigido por Joseph L. Mankiewicz, All About Eve conta a história do relacionamento conturbado entre uma atriz da Broadway em decadência (Bette Davis, na melhor atuação de sua carreira) e uma jovem fã, de atitudes dúbias e ambições secretas. A produção teve 14 indicações ao Oscar, um feito só superado por Titanic, quase cinco décadas depois. Ganhou seis, inclusive de melhor filme e diretor. É presença rotineira nas listas de filmes mais importantes de todos os tempos. Precisa dizer mais? Uma curiosidade: Marilyn Monroe, novinha e linda, faz uma ponta naquele que é o seu primeiro papel de maior importância.

As Horas (The Hours, 2002)


As Horas conta as histórias de três mulheres, em três diferentes épocas. Em 1923, a instável Virginia Woolf (Nicole Kidman) escreve aquele que talvez seja seu livro mais famoso, Mrs. Dalloway. Avançando para a década de 50, uma dona de casa amargurada (Julianne Moore) prepara um bolo de aniversário para seu marido. Seu filho acompanha tudo com atenção. Na época atual, Clarissa Vaughan (Meryl Streep) se encarrega de organizar uma festa para um grande amigo seu, que se encontra gravemente enfermo. Essas linhas narrativas, tão distantes entre si, revelam inesperadas conexões. Comovente drama do diretor Stephen Daldry, baseado no livro homônimo de Michael Cunningham. Ótimas interpretações do trio central, embalado por uma das melhores trilhas sonoras de Philip Glass.

Manhattan (Manhattan, 1979)


A história acompanha as desventuras amorosas de um homem de meia idade (Woody Allen), duas vezes divorciado e em meio a uma crise existencial. Romanticamente envolvido com uma ninfeta de 17 aninhos (Mariel Hemingway), ele acaba se apaixonando por uma mulher mais madura e sofisticada (Diane Keaton), e tão neurótica quanto ele. O problema é que ela é a amante do seu melhor amigo. Junto com Annie Hall, este é um dos meus filmes prediletos do diretor Woody Allen. Dei preferência a Manhattan por sua marcante fotografia em preto e branco, que tem muito mais a ganhar com a transposição para blu-ray. Sem falar na desbundante trilha sonora, recheada de composições inesquecíveis do mestre George Gershwin. Especial destaque para a sequência de abertura, seguramente uma das melhores de todos os tempos. Ao som de Rhapsody in Blue - que por si só já valeria o ingresso - e com uma divertidíssima narrativa em off que desnuda a psiquê do personagem principal, somos presenteados com imagens inesquecíveis de uma Nova Iorque muito pessoal. Ela será um dos principais personagens da história, na homenagem definitiva do diretor a essa cidade que ele tanto ama: "New York was his town... and it always would be". Isso resume tudo.

Gilda (Gilda, 1946)


O proprietário de um cassino ilegal na Argentina casa-se com Gilda, uma mulher belíssima, mas de passado obscuro. Só que o seu gerente, um amigo de confiança, teve um relacionamento anterior com ela. Rita Hayworth, uma das atrizes mais bonitas da história do cinema, está aqui mais linda e sensual do que nunca, em seu papel mais famoso. Só a cena em que ela canta, maliciosamente, a icônica Put the Blame on Mame, enquanto se livra de suas luvas, é motivo suficiente para ansiar pela edição em blu-ray. Nunca houve uma mulher como Gilda, provoca o cartaz do filme. Depois de conhecê-la, é difícil não concordar.

Heavy Metal - Universo em Fantasia (Heavy Metal, 1981)


Um misterioso globo verde de energia, que representa a soma de todos os males, educa uma garota sobre a natureza maligna do homem. Mas ela poderá não sobreviver à aula. Antes que os cinéfilos de plantão me condenem à fogueira por colocar Heavy Metal em companhias tão ilustres como os filmes acima citados, duas observações. Primeiro, essa é uma lista de BDs que eu desejo que sejam lançados, e não uma lista de melhores-filmes-ponto-final. Segundo, esse desenho animado faz parte das minhas memórias afetivas, e eu o reverencio com um sentimento quase religioso. Eu e uma legião de fãs. Pense nisso como algo similar ao culto a The Rocky Horror Picture Show. É mais ou menos por aí. Adoro esse filme, e não, não recomendaria para qualquer um. Dificilmente alguém alheio à cultura que o criou vai entender a fascinação que ele provoca. Refiro-me, especialmente, aos familiarizados com os quadrinhos underground de fantasia, scifi e horror do final dos anos 70, dos quais a revista americana Heavy Metal foi uma das mais famosas divulgadoras. Talvez não tão importante quanto suas irmãs européias (Metal Hurlant, Cairo, El Víbora, Frigidaire, etc), que eram muito mais subversivas, mas é sem dúvida a mais conhecida. Não pretendo me estender muito aqui, pois desejo fazer um longo post específico sobre essa animação cult em um futuro, espero, não muito distante. Heavy Metal merece um tratamento de primeira, caso seja lançado em blu-ray. Desejo especialmente uma remasterização que corrija as constantes oscilações de cores que ocorrem em determinadas cenas. E uma qualidade de som que faça justiça à sua excelente trilha sonora.

E você? Concorda com essa lista? Qual filme está louco para ver em breve nas caixinhas azuis? Ben-Hur? Doutor Fantástico? Cidadão Kane? Lambada, a Dança Proibida? Sugestões são bem vindas!

PS: depois desse longo post, o último do ano, uma breve pausa para descansar. Voltarei no início de 2011. Ou antes, caso ocorra algum imprevisto. Caso contrário, desde já um ótimo ano novo para todos vocês!

3 comentários:

Fabiano G. Souza disse...

Ben-hur e Cidadão Kane estão vindo por aí, merecidamente poderiam estar na lista.

Não entendi até hoje porque não existem nem rumores do lançamento da trilogia Indiana Jones em blu-ray.

Os filmes do Woody Allen nem sei se foi lançado qualquer título em blu-ray, só mesmo se for algum mais recente.

Fabiano G. Souza disse...

O Mulholland Drive já saiu ne Europa:
http://www.blu-ray.com/movies/Mulholland-Drive-Blu-ray/11187/#Review

O All About Eve já vai sair no inicio de 2011:
http://bluray.highdefdigest.com/news/show/Disc_Announcements/20th_Century_Fox/An_Affair_to_Remember_and_All_About_Eve_Announced_for_Blu-ray/5898

José Guilherme Wasner Machado disse...

É nessas horas que eu gostaria de ter um player desbloqueado! A biblioteca disponível se torna muito, MUITO maior!

E nem dá para reclamar. Demos sorte de estarmos na mesma região BD dos EUA. Se ficássemos na dependência do que é lançado aqui no Brasil, ferrou geral.

Abraços!

Postar um comentário

Por favor, fique à vontade para comentar, é um prazer saber sua opinião. Seja ela contra, a favor, ou muito antes pelo contrário. Não será permitido trolling, bullying, spam, preconceito e ataques meramente pessoais ou destrutivos.

BlogBlogs.Com.Br