Snif, chuif, snif...
Meus colegas de trabalho ficaram bravos comigo, quando achei graça na cena do Ronalducho se debulhando em lágrimas na coletiva de imprensa, onde anunciou sua aposentadoria. Entre outras coisas, o obeso futebolista queixou-se das constantes cobranças da torcida e das críticas da imprensa. Me desculpem os solidários, me desculpe o Galvão Bueno (opa, esse não), me desculpem todos os que morrem de compaixão pelos draminhas fúteis dos pobres meninos ricos de nosso país. Apesar da "cultura do coitadismo" que impera no Brasil, não tenho pena da figura não.
Queria ver o rotundo jogador ter de enfrentar o dia-a-dia de um típico brasileiro, ainda mais um que não tenha tido chances de estudar. Como foi o caso dele, Ronaldo, antes da carreira esportiva. Queria vê-lo pegando busão, debaixo de chuva, às cinco da manhã. Queria vê-lo espremido dentro do ônibus, em pé, com mais uma centena de passageiros. Sentindo calor e falta de ar por duas horas, até finalmente conseguir chegar no serviço. Queria vê-lo carregando tijolo ou esfregando o umbigo em balcão, por oito horas ou mais. Queria assistir ele receber esporro do patrão, porque chegou com cinco minutinhos de atraso. E então fazer o mesmo caminho de volta, até chegar num casebre cai-não-cai de um único cômodo, à beira de um barranco, para alimentar uma familia de 5 filhos ou mais, com uma merreca de salário mínimo. Sabendo que no dia seguinte tudo vai começar novamente, com dores ou sem dores no corpo, até a aposentadoria - se conseguir - de 65 anos ou mais. Aí sim, eu teria pena dele.
No mais, tenho certeza de que ele vai conseguir consolar o ego abalado com sua fortuna de centenas de milhões de dólares, com suas mansões espetaculares, seus carrões importados, seus puxa-sacos de montão e suas marias-chuteiras deslumbrantes. Vai ser difícil, claro, mas acho - acho! - que ele vai conseguir e então finalmente desfrutar de sua aposentadoria aos 34 anos (realmente, é muito sofrimento, tenho que admitir). Aposto que logo o veremos sorrindo na capa da Caras, ao lado de uma modelo bem gostosa, naquela ilha da fantasia.
Até lá, vou guardar minha pena para quem merece.
[Update] Troquei o "Ronaldinho" do título por "Ronaldo Fenômeno", para não causar confusão com o nome do Ronaldinho Gaúcho.
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