Pais Bananas, Crianças Chiliquentas


Sou mais do que compreensivo com o fato de que barulho é algo inerente a qualquer pequerrucho. De fato, simpatizo muito com vários deles, independente do nível de decibéis que enviam para o meio ambiente. Afinal, são crianças simpáticas e educadas - apenas exuberantes. Crianças muito bem criadas por pais responsáveis e conscientes do seu dever. O problema é que alguns exemplares de infantos não se encaixam nessa categoria. E com esses não tem jeito, não tem compreensão. São irritantes, chatos, verdadeiros malas. Mais insuportáveis do que apresentação da Xuxa no Domingão do Faustão. Refiro-me, claro, às Crianças Chiliquentas.

A culpa não é delas, sejamos justos. É de seus pais. Uns bananas acomodados e preguiçosos, incapazes de controlar os caprichos de seus ditadores mirins, de colocar limites, de ensinar disciplina e educação. Uns covardões que morrem de medo de se opor à mais simples das vontades desses pequenos hitlerzinhos. As razões são óbvias. Filhos podem ser inocentes, mas não são tolos. Eles sabem como lidar com esses capachos que os criam, e se aproveitar do vácuo de poder. É daí que surge a inconfundível e temerária figura da Criança Chiliquenta. E quem vai pagar o pato é você, meu caro, que não tem nada a ver com a história. Prepare-se para sofrer de Paternidade/Maternidade Passiva! Console-se - pelo menos não tem nicotina.



Use Camisinha

É fácil identificar uma Criança Chiliquenta. Elas costumam apresentar um comportamento altamente padronizado, o que me leva a desconfiar, inclusive, de que seja algo codificado em nosso DNA. Vale tese de mestrado! Vejamos algumas táticas básicas dessa galera:

  • A Incrível Queda Livre: Você certamente já viu isso várias vezes. A Criança Chiliquenta simplesmente solta o peso do corpo quando o(a) infeliz do(a) genitor(a) tenta levá-la pela mão, em direção oposta à que ela deseja. A Criança Chiliquenta despenca e fica ali pendurada pelo braço, como uma espécie de jaca esperando para cair de podre. Só sai dali arrastada. É uma cena que forneceria ótimo material cômico para os demais transeuntes, se eles não estivessem com uma vontade ainda maior de torcer o pescocinho do pentelho.

    A Queda Livre nunca vem sozinha, sendo normalmente seguida pelo...
     
  • O Berro Hiper-Sônico: sabe aquela detestável música-tema de O Guarda-Costas, cantada pela intragável Whitney Houston? Lembra-se da parte em que a cantora puxa todo o ar do ambiente, matando os demais integrantes da banda por falta de oxigênio? Por um ou dois segundos, um maravilhoso silêncio se faz presente, e aí ela solta um berro descomunal, atirando em nossas caras o execrável refrão da melodia (IIÊÊÊÊ,IÊÊÊÊ, IWILLAWAYSLOVEYOUUUuUuU--Uu-Uu-U-U-Êê-Êê), e tudo o que nós desejamos é estar em um foguete, a caminho de Alfa-Centauri.

    Pois é, o Berro Hiper-Sônico da Criança Chiliquenta seque o mesmo padrão tático de ataque. Há aquele instante de mágico silêncio, de paz interior, com passarinhos cantando e ovelhas balindo, enquanto a diabólica criaturinha suga todo o ar circundante com seus pulmões poderosos e com a boca mais aberta possível, para que não se perca uma única molécula de oxigênio transitando nas redondezas. O rosto vai assumindo colorações diferentes - amarelo, vermelho, roxo, verde, azul. Então, como na arma de ondas da Patrulha Estelar, toda energia sônica potencial acumulada se liberta de uma única vez, numa explosão. Centenas de decibéis destruindo vidros, estourando tímpanos, matando animais de pequeno porte e formatando HDs. Não interessa se você está do outro lado do shopping, do outro lado da cidade, ou mesmo do outro lado do país. Você... vai... escutar. E você... vai...sofrer. Até porque, com 97% de chance, a Criança Chiliquenta vai estar é logo ali na mesa do lado. Sim, naquele restaurante chique, onde você pagou uma fábula para levar a sua esposa para um jantar romântico, à luz de velas (que terão se apagado). Você olha o relógio, imaginando se confundiu jantar com almoço; mas não, é quase meia-noite. O que uma Criança Chiliquenta estaria fazendo ali, naquele lugar, naquela hora? Como se você não soubesse a resposta! É quando você percebe, com extremo terror no coração, que o ataque só começou. Que as ondas sonoras agora se comprimem, atingindo um tom agudo que os cientistas achavam impossível de ser detectado pelo ouvido humano. E você está ali, testemunhando a contraprova em primeiríssima mão.
     
  • O Pequeno Fred Astaire: se a Queda Livre e o Berro Hiper-Sônico não tiverem funcionado - a maioria dos Pais Bananas provavelmente já terá capitulado nesse ponto - segue-se a infalível tática do sapateado. Aos gritos estridentes e insistentes de "BABÃÃÃE!" (sim, com essa boca mole), ou "BABAAAAI!" (a tática é sempre pedir socorro ao genitor não envolvido; uma maneira de enfraquecer os adversários, jogando-os uns contra os outros), o pequeno Gene Kelly dispara a sapatear no recinto, os pés habilmente acompanhando o Hino Nacional do Quinto Círculo do Inferno. Lágrimas copiosas de cortar o coração (para os pais, é claro), catarro verde-amarelado descendo em cascatas pela face congestionada, braços estapeando em todas as direções (especialmente na direção do rosto mais próximo), o Fred Astaire de Shorts demonstra, de forma cabal, que não pretende ceder um milímetro sequer nas suas reivindicações. Não adianta apelar para o Chamberlain - entreguem o Corredor Polonês logo de uma vez!


É óbvio e ululante que, assim que os pais capitulam, tudo termina com a mesma rapidez com que começou. As lágrimas desaparecem em milissegundos, como se jamais houvessem existido. Para a paz geral, embora não duradoura (nem se atreva a cultivar esperanças!), as cortinas se encerram sobre mais um espetáculo teatral de péssima qualidade. E pensar que você nem pagou para ver a peça! Mas ai - AI! - de você, espectador inocente e involuntário, se olhar minimamente torto para o príncipe herdeiro de Astúrias e Bourbon, o escolhido, o futuro líder que irá guiar a humanidade. Pobre de você se fizer um muxoxo inaudível para essa mistura mirim de Neo com Paul Atreides e John Connor, o produto mais perfeito da combinação de DNA que dois seres humanos puderam gerar desde a aurora dos tempos! O errado é você, insignificante plebeu, e arrisca-se mesmo a levar uns tabefes da Guarda Imperial do pimpolho. Ainda que você esteja no cinema, na sessão de 22:00 de O Massacre da Serra Elétrica. Ainda que esteja em um boteco copo-sujo, passando das 2:00 da manhã de uma quarta-feira. Ainda que esteja no velório da sua querida avó!

É, pensando bem, não são as Crianças Chiliquentas que me irritam. São seus Pais Bananas, seus Pais Irresponsáveis, seus Pais Preguiçosos, Comodistas e Egoístas. Cadeia para eles. E sem direito a condicional.

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4 comentários:

Gustavo Coelho disse...

Crianças chiliquentas irritam absurdamente mesmo. Entretanto, o problema maior está realmente na omissão de seus pais boçais. São estes que, para proteger seus preciosos e inocentes filhos de videogames violentos, animações obscenas e coisa e tal, bradam a favor de censuras e proibições instituídas pelo governo.

José Guilherme Wasner Machado disse...

Exatamente, Gustavo!

Bruno disse...

Wasner, se eu for demitido a culpa será sua! Estava lendo e rindo baixinho no escritório, mas quando cheguei na parte do "Paternidade passiva", não consegui mais segurar a risada. Ao chegar os últimos parágrafos, já estava em crise de riso. E mesmo que perfeitamente ciente do lugar onde estava, não conseguia parar de ler e rir.

Enfim, estas crias do apocalipse também adoram atacar em viagens. Seja de ônibus, navio, avião, submarino ou Normandy SR-2. E é exatamente por isso que não viajo sem meu mp3. Pode até parecer contraditório, mas uso barulho (também conhecido como música) para criar silêncio. Um mundo só meu, de paisagens belíssimas (já que sempre viajo na janela e só tiro os olhos da mesma quando a comissária de bordo oferece comida e bebida) com uma trilha sonora que me agrada.

Sinceramente acho que deveria ser proibido por lei ter filhos sem antes tirar uma licença que comprove o preparo e a estabilidade mental dos pais. Lógico que isso traria inúmeros problemas e jamais daria certo. Apenas deixe-me sonhar com um mundo onde todos pais são bons e responsáveis educadores.

José Guilherme Wasner Machado disse...

Hehehe! Obrigado, Bruno!

O problema é que muitos casais têm filhos na base do "auê", sem pensar nas consequências, sem avalair o trabalho e a responsabilidade que é ter um filho. Quando descobrem, não querem de fato assumir o fardo.

Abraços!!

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