Gods of The Arena é uma minissérie em seis episódios, que serve de preâmbulo para Spartacus: Blood and Sand (resenha aqui). Apesar do que o título sugere, Spartacus, o personagem central daquela produção, não dá as caras desta vez. A minissérie prefere focar o passado imediato da família Batiatus. Tirando esse pormenor, Gods of the Arena tem tudo aquilo que caracteriza Blood and Sand, para bem ou para mal: violência explícita, nudez gratuita, sexo em profusão e, claro, sangue em quantidades absurdas. É uma mistura indigesta para pessoas mais sensíveis e, com certeza, não é o que eu classificaria como um primor do bom gosto. De fato, há alguns momentos que beiram o grotesco. Apesar disso, aqueles que insistirem poderão descobrir aqui um entretenimento de primeira.
Na história (sem spoilers), acompanhamos Batiatus (interpretado por John Hannah, com sua habitual e divertida teatralidade) às turras com outros lanistas, mais poderosos e influentes do que ele. Os lanistas, como os espectadores de Spartacus devem se lembrar, são os "empresários" de gladiadores - pessoas que compram escravos promissores e os treinam para lutar na arena. Ao contrário de seu pai, afastado do comando do ludus por causa de uma doença, Batiatus não pretende absolutamente se contentar com uma posição inferior, e está disposto a usar de qualquer subterfúgio ou tramóia para aumentar o prestígio da sua casa. Com isso, ele entrará em rota de colisão com o truculento Tullius, uma espécie de Ricardo Teixeira da época. Batiatus não tem noção da briga de cachorro grande em que está se metendo.
Batiatus não anda nada satisfeito com seu status atual.
Entrementes, sua esposa, Lucretia (Lucy Lawless, a eterna Xena), vê-se compelida a ajudar uma antiga amiga, Gaia. Gaia (a gracinha Jaime Murray, da segunda temporada de Dexter) está viúva, sem tostão e sem um teto para morar. Como sua única ocupação é ser esposa-troféu de algum partido rico, ela precisa encontrar, e logo, um novo marido. Não sendo nenhuma tola, logo percebe que ela e os Batiatus podem se beneficiar mutuamente de uma parceria. Gaia, todavia, pode estar subestimando a inteligência e a periculosidade de seus possíveis candidatos. Mas os problemas da amiga são apenas parte das atribulações de Lucretia, às voltas com suas próprias preocupações. Seu antigo sogro está de volta ao lar, e ele não aprova nem um pouco o casamento do filho e seus conflitos com os poderosos de Cápua (a cidade onde se passa a história).
Os Batiatus dão ótimas festinhas particulares.
Alguns velhos conhecidos de Blood and Sand reaparecem em Gods of the Arena. Crixus, o velho rival de Spartacus, é aqui um mero aprendiz e saco de pancada. Humilde e disposto a aprender, ele já está de olho no título de Gannicus, o atual campeão da casa e um dos personagens centrais da minissérie. Oenomaus é outro que dá as caras. Grande amigo de Gannicus, a quem considera um irmão, ele ainda não é o doctore - o "técnico" dos gladiadores, cargo que deixaria Felipão e Dunga parecendo menininhas birrentas - e está se recuperando de graves lesões de uma luta anterior. De elevado prestígio na casa, Oenomaus obteve o raro benefício de receber as visitas conjugais de sua esposa, a gostosíssima Melitta (não o eletrodoméstico), escrava pessoal de Lucretia. Ashur, o intrigante de plantão do ludus de Batiatus, também reaparece. Ele ainda é um trainee de gladiador, e precisa desesperadamente passar no ENEM da categoria, se não quiser ser enviado para as minas. Ashur, claro, vai usar de toda a sua malemolência e malandragem para levar vantagem. Faria sucesso em Brasília, esse rapaz!
Lucretia faz política de boa vizinhança.
Assim como ocorre em Blood and Sand, Gods of the Arena surpreende pela inesperada carga dramática de algumas de suas tramas, pelas reviravoltas que conseguem surpreender o espectador, pela habilidade com que evita muitos dos clichês do gênero, e pela garra do elenco, o que, de muitas formas, compensa suas limitações. Há até mesmo um tom de crítica social que, todavia, não tem a pretensão de doutrinar o espectador. A minissérie é bem escrita, e é ainda mais eficiente em prender a atenção do espectador que a original. Por possuir menos episódios, não fica perdendo tempo e nem enrolando o inevitável, o que lhe empresta um ritmo mais dinâmico. Entretanto, a menor duração implica um desenvolvimento mais superficial dos personagens, o que é uma pena. Gannicus, embora seja um personagem simpático, não tem o mesmo carisma de Spartacus. Mas sempre podemos contar com John Hannah para segurar as pontas; ele que é o verdadeiro centro dessa minissérie, e ao redor do qual todos os demais orbitam. Os efeitos especiais estão mais caprichados, principalmente para uma produção televisiva. A violência também está mais realista, sobrando até mesmo para os espectadores da pequenina arena de Cápua (a arena vista na produção original ainda se encontra em construção). Aceite meu conselho: nunca sente na primeira fileira! Não é mais utilizado o "efeito digital de sangue", uma das características mais curiosas e exageradas de Blood and Sand e que, paradoxalmente, amenizava suas passagens mais violentas, conferindo-lhes um caráter quase cômico. A série preserva, contudo, a estética de videogame dos seus combates. Fãs de God of War ou Dragon Age 2 se sentirão em casa.
Gannicus é o atual campeão do ludus de Batiatus.
O final da minissérie peca por encerrar sua trama principal demasiadamente cedo, estendendo-se demais após sua conclusão. Em grande parte para satisfazer os fãs de ação, que são uma parcela considerável da audiência. Eles não teriam o payoff desejado se a série se concentrasse exclusivamente nos aspectos dramáticos. Ainda assim, o final é emocionante e um tanto inesperado, considerando como os fios das tramas costumam ser costurados por aqui. Penso, todavia, que foi um erro a produção se iniciar pelo final de Blood and Sand. É algo perfeitamente dispensável, já que se trata de um prequel, e impede que os espectadores assistam à minissérie de modo independente da série principal.
Oenomaus está de volta. Mas ele ainda não é o doctore. E nem deseja sê-lo.
Resumo da ópera: Quem gostou de Spartacus: Blood an Sand vai adorar Gods of the Arena. Quem detestou, vai odiar mais ainda. E a Liga das Senhoras Católicas de Santana vai, claro, continuar orando ao Todo Poderoso e pedindo por uma programação mais cristã. Em vão! Brincadeiras à parte, a franquia Spartacus não é mesmo algo para se levar muito a sério, mas nem por isso deve ser desprezada. Encare suas truculências com o devido bom humor, rindo-se dos seus absurdos. Assim como a série original, Spartacus: Gods of the Arena é muito mais do que pode aparentar inicialmente aos desavisados, e quem souber relevar seus exageros irá se divertir e torcer um bocado. Ainda que se sinta um pouco culpado por isso.
Aceite meu conselho: nunca sente na primeira fila.
Melitta não é eletrodoméstico, mas dá um caldo.
Gannicus aplica uma dura lição de humildade em Crixus.
Titus é o pai de Batiatus. Ele não anda contente com o filho.
Tullius é o manda-chuva das lutas de gladiadores. E gente fina prá caramba.
Gaia é a esposa-troféu em busca de um marido rico.
Não é um bom dia para Batiatus...
Rrrrrrrrrrrrola mais uma cabeça!
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1 comentários:
Ola Jose Guilherme, muito boa a resenha.
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