Confesso que há um bom tempo não aguardava uma série com tanta ansiedade. Refiro-me a Game of Thrones, adaptação televisiva da obra homônima de George R. R. Martin e primeiro capítulo da saga... não, esquece esse papo de "saga". O termo "saga" perdeu todo o apelo e respeitabilidade depois do advento da "Saga Crepúsculo". Teremos que inventar uma nova palavra. Bem, prosseguindo, Game of Thrones é apenas o primeiro livro de uma série maior, intitulada A Song of Ice and Fire (clique aqui para maiores detalhes). Imagino que cada temporada da série televisiva irá corresponder a um livro de A Song of Ice and Fire ("As Crônicas de Gelo e Fogo", no Brasil). No domingo passado, a produção estreou na TV americana (no Brasil, isso ocorrerá em 08 de maio). A recepção foi a melhor possível. A maioria esmagadora da imprensa especializada se derramou em elogios ao mais recente tour de force da HBO, que busca recuperar o prestígio perdido em anos recentes. A julgar pelo que vi no primeiro episódio, ela está no caminho certo para tal. (fiquem tranquilos, não há spoilers)
Para começar, os valores de produção são excepcionais para uma série de TV. Game of Thrones não faz feio ao lado de produções cinematográficas equivalentes, e ainda tem a seu favor o trunfo de um roteiro adulto, complexo e inteligente como há muito não se via no gênero. O cuidado empregado na caracterização do universo imaginado por George Martin se vê por todos os lados, desde a recriação fiel em CGI da Muralha de Gelo, de Winterfell e de Porto Real, passando pelo ótimo figurino e pelos detalhados cenários. O elenco também foi muito bem escolhido, embora ainda seja cedo para afirmar isso com certeza. Afinal, uma das características mais marcantes dos livros é a sua abundância de personagens. De fato, ao contrário de obras como O Senhor dos Anéis, em Game of Thrones muitas vezes uma ação decisiva é protagonizada por personagens secundários e, não raramente, terciários. Se isso, por um lado, agrega realismo à história - afinal, os personagens principais não podem ser os melhores em tudo, e nem estar em todos os lugares simultaneamente - por outro dispersa a atenção do leitor. Que, não raramente, fica perdido em meio a tantos nomes e dinastias. A menos que a HBO limite propositalmente o escopo, ou reescreva certos eventos (para horror dos puristas), é certo que o mesmo problema se repetirá na série televisiva. Com o agravante de que nela não haverá tempo suficiente para desenvolver os protagonistas tão detalhadamente como ocorre nos livros. Afinal, são apenas 10 episódios para consolidar mais de 600 páginas de informação. O piloto deixa isso bem claro. A velocidade com que os acontecimentos são apresentados é enorme, e é claro que os personagens ficam prejudicados. Ainda assim, a série faz um trabalho competente no resumo dos acontecimentos. Um benefício, sem dúvida, por poder contar com o próprio George Martin como co-produtor executivo e roteirista. O escritor vem acompanhando de perto os trabalhos, e os espectadores só têm a lucrar com isto.
Voltando aos atores, é raro que um fã de uma obra literária se sinta completamente feliz com o elenco de uma versão televisiva ou cinematográfica. Tendo lido dois livros da série, já me considero grande apreciador da obra de Martin, e essa foi uma das raríssimas vezes em que fiquei satisfeito com o cast escolhido. Pelo menos em relação aos (poucos) personagens que já deram as caras. Todos eles se encaixam maravilhosamente bem com seus personagens, e correspondem bastante à imagem mental que eu tinha destes. Claro que os atores ainda não estão totalmente confortáveis em seus papéis, o que é normal em qualquer série de TV que se inicia. Leva-se tempo para isso, mas é um começo surpreendentemente promissor. E se o espaço disponível é pequeno para aprofundar os personagens, alguns toques bem pensados conseguem transmitir ao espectador uma boa idéia de quem eles são, ou de como se relacionam uns com outros, resumindo assim páginas e mais páginas de texto. Dessa maneira, assistimos Arya disparando uma seta certeira contra um alvo, ou vestindo um capacete de soldado, e daí adivinhamos que ela dificilmente se conformará com um papel tipicamente feminino. Uma brincadeira entre Ned Stark e o Rei explicita a amizade e familiaridade entre ambos. Um breve olhar de Catelyn para Jon Snow escancara seu ressentimento contra o filho bastardo do esposo, e a infidelidade que ele representa. Em um bordel, Tyrion logo demonstra que ele pode ser anão, mas não é nenhum bobo da corte. Apesar desses momentos, sinto pena por não haver espaço suficiente para apresentar os complexos, contraditórios, e nem um pouco maniqueístas personagens de George Martin como eles realmente merecem.
Como vemos, a produção da HBO começa com o pé direito, e tem tudo para melhorar ainda mais. Afinal, o livro em que se baseia começa meio morno, mas vai crescendo ao longo do tempo, à medida que suas tramas se aprofundam. O mesmo provavelmente acontecerá com a série, se ela continuar sendo bem conduzida. Alguns problemas, todavia, eu prevejo desde já. Grandes e complexas cenas de batalha serão necessárias mais adiante. Será que elas serão representadas de modo convincente? Há ainda a questão do grande número de personagens, levantada acima. E é necessário lembrar que Game of Thrones não é para qualquer um. O gênero "Fantasia", por si só, não é nenhuma unanimidade, por mais sério e adulto que seja. E quem espera ver elfas bonitonas saltitando em vestidos esvoaçantes, ou grandes feitos heróicos de personagens nobres e incorruptíveis, vai quebrar a cara com certeza. Game of Thrones apresenta um universo "medieval" em mais de um sentido. É uma realidade embrutecida, cruel, amoral e impiedosa, como o público poderá perceber logo nesse primeiro episódio. É por demais realista para ser digerível pelo espectador mediano, e dispendiosa demais para ser lucrativa sem uma audiência robusta. A segunda temporada foi confirmada pela HBO (e nem se esperava outra coisa, considerando os investimentos já feitos), mas será que essa excelente produção conseguirá avançar para além disso? Ou acabará tendo o mesmo fim melancólico de Roma? Existe, claro, todo um enorme mercado potencial composto por milhões de fãs dos livros, muitos dos quais comprarão avidamente os DVDs e os blu-rays da série - eu provavelmente serei um deles. Mas será que isso é o bastante para viabilizar a série economicamente?
Se depender apenas de mim, o inverno não chegará tão cedo para Game of Thrones.
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3 comentários:
Que resenha maravilhosa. Concordo com você em todos estes sentidos, mas já tendo assistido ao segundo episódio, vi que a tendência da série é melhorar, em um crescendo vertiginoso. Não é um espetáculo fácil ou agradável para o público médio, que prefere séries cômicas ou "leves", mas agrada em cheio os fãs de fantasia que estavam um pouco órfãos de produções de boa qualidade. "Game of Thrones" veio para mudar isso, e estou confiante em seu sucesso.
Beijos,
Jaqueline
Obrigado pela gentileza, Jaque! Também penso o mesmo que você. A série só tem a crescer daqui para frente. Assisti o segundo episódio ontem, e já estou fã da atuação do ator que interpreta Tyrion. Faz jus ao meu personagem preferido nos livros.
Abração e volte sempre!
Aguardando ansiosamente a continuação...
Julie (RS)
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